Ele está calmo, sentado em seu computador, matando sua curiosidade sobre a vida alheia. É mais uma noite quente por fora, mas fria por dentro. O sentido inexiste, tudo que ali há é carne sobre osso. Músculo que bate, ar que entra e sai - uma máquina, nada além disso. Uma máquina desprovida de motivo.
É quando acontece. O tempo pára a seu redor. Não, o tempo não pára. O tempo parado é a própria morte da carne, mas a única coisa, até então, morta, nele, era a essência. A carne está viva e, agora, mais do que nunca, trabalhando. O tempo não pára, ele desacelera. Desacelera a velocidades insignificantes, mas que, tão certo quanto as massas dos elétrons, ainda existem.
São anos, séculos, milênios passando à sua frente. De um momento para o outro, sua mente está presente em todos os lugares, em todos os momentos. Ele vê o passado, pensa no presente, imagina o futuro. Por um segundo, ele vive. Por um segundo, há essência.
É uma corrida de emoções e sentimentos tão rápida que o corpo não pode manifestar. Parece um estado de transe. Como a máquina, ele parece ter emperrado. A essência lhe deu, por este mínimo momento de eternidade, opinião, vontade. Vontade que emperra a catarse que o movia até então. Vontade que lhe dá razão.
São longos, variados e praticamente infindáveis projetos futuros que, provavelmente (e ele ainda tem tempo de ponderar isto), nunca sairão do papel, pelo menos em sua maioria. De que adianta a eternidade se ela não lhe dá a chance de realizar o que ela lhe permite planejar? Então um súbito impulso de vontade, mais uma vez, o guia. Ele tem razão, ele pode usá-la. Ele pode, enfim, controlar o próprio destino. Ou pelo menos tentar.
Enfim o mundo volta ao normal. A gota de água suspensa por uma eternidade no ar cai no chão, finalmente, tirando a sujeira, mas, ao mesmo tempo, acompanhada do som do trovão. O que lhe aguarda é incerto, mas ele vai tentar. Ele cansou de não poder mandar no seu próprio tempo.
Então ele clica, finalmente, naquela janelinha pequenina, no canto de seu computador, que informou que ela estava na Internet. Aquela janelinha que, por mais insignificante que seja, desacelerou o tempo e deu novo sentido à vida dele. Sem se importar com os milhares de anos em que nasceu, cresceu e envelheceu nos últimos cinco segundos, ele escreve um descompromissado "olá" a ela, pois não há mais relógio neste mundo de carne e osso capaz de marcar o tempo de seus sentimentos.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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4 comentários:
Realmente o ser humano é engraçado. Conseguimos arrastar o tempo, com um pensamento, como também conseguimos sentir muito quando ele passa voando quando estamos felizes.
O irônico é que o tic tac do relógio é sempre o mesmo, em ambas as circunstâncias.
??? alguem me explica essa bagaça.. o texto eu entendi... mais e esse comentaio quem fez???
A Helô, uma amiga minha que você desconhece, meu caro.
Para matar a curiosidade sobre a vida alheia com toda a tranqüilidade: Zakk Wylde.
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